Publicada em 12/10/2017 às 21:59

Julgar é sempre falta de amor? - Por Augustus Nicodemus

Claro que não! E quem explica a questão é Augustus Nicodemus, autor de Polêmicas na Igreja.

Tornou-se comum evangélicos acusarem de falta de amor a atitude de outros evangélicos que tomam posicionamentos firmes em questões éticas, doutrinárias e práticas. Considera-se desamor tudo aquilo que envolve a exposição, a discussão e o confronto de opiniões alheias. Essa postura reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que toma como ofensivo todo confronto de ideias no que se refere a teologia. Perdeu-se a virilidade teológica. Vivemos dias de frouxidão, nos quais proliferam os que tremem diante de uma peleja teológica de maior monta e saem gritando, histéricos: “Linchamento! Linchamento!”.

Pergunto-me se a Reforma Protestante teria acontecido se Lutero e seus companheiros pensassem dessa forma.

É possível que, no calor de uma argumentação, durante um debate, saiam palavras ou frases que poderiam ter sido ditas ou escritas de modo mais apropriado. Aprendi com meu mentor espiritual, o pastor Francisco Leonardo Schalkwijk, que a sabedoria reside em conhecer “o tempo e o modo” de dizer as coisas (Ec 8.5). E todos nós já experimentamos a frustração de descobrir que nem sempre conseguimos nos expressar da melhor maneira.

Todavia, não posso aceitar que seja falta de amor confrontar irmãos que, a nosso ver, não andam na verdade, assim como Paulo confrontou Pedro quando esse deixou de seguir o evangelho genuíno (Gl 2.11). Muitos vão dizer que essa atitude é arrogante e que ninguém é dono da verdade. Outros, contudo, entendem que faz parte do chamamento bíblico examinar todas as coisas, reter o que é bom e rejeitar o que é falso, errado e injusto.


Considerar falta de amor a discordância quanto aos erros de alguém é desconhecer a natureza do amor bíblico. Amor e verdade andam juntos.


Oseias queixou-se de não haver amor nem verdade entre os habitantes da terra (Os 4.1). Paulo pediu que os efésios seguissem a verdade em amor (Ef 4.15). Quanto aos tessalonicenses, o apóstolo denunciou os que rejeitavam o amor da verdade e que, por isso, não eram salvos (2Ts 2.10). Pedro afirmou que a obediência à verdade purifica a alma e leva ao amor não fingido (1Pe 1.22). João desejou que a verdade e o amor do Pai estivessem com seus leitores (2Jo 3). O empenho para que a verdade predomine não pode ser confundido com falta de amor para com os que disseminam o erro.

O apelo ao amor sempre encontra eco no coração dos evangélicos, mas falar de amor não é garantia de espiritualidade nem de verdade. Afinal, há quem não leve uma vida reta diante de Deus e se gabe de praticar o amor. O profeta Ezequiel enfrentou um grupo de pessoas desse tipo: “Com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro” (Ez 33.31). O que ocorre é que, às vezes, a ênfase ao amor é simplesmente uma capa para acobertar uma conduta imoral ou irregular diante de Deus. Paulo criticou isso nos crentes de Corinto, que se gabavam de ser uma igreja espiritual, amorosa, ao mesmo tempo que toleravam imoralidades em seu meio: “Contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? [...] Não é boa a vossa jactância” (1Co 5.2,6). Paulo se referia a um jovem “incluído” que dormia com a própria madrasta.

O discurso das igrejas que hoje toleram todo tipo de conduta irregular praticada por seus membros é exatamente esse, ou seja, afirmam-se igrejas amorosas, que não condenam nem excluem ninguém.

[...] O amor bíblico disciplina, corrige, repreende, diz a verdade. E, quando se vê diante do erro seguido de arrependimento e contrição, perdoa, esquece, tolera, suporta. O Senhor, ao perdoar a mulher adúltera, acrescentou: “Vai e não peques mais” (Jo 8.11). O amor perdoa, mas cobra retidão. Jesus pediu ao Pai que perdoasse seus algozes, que não sabiam o que faziam; todavia, na semana que antecedeu seu martírio, não deixou de censurá-los, chamando-os de “hipócritas”, “raça de víboras” e “filhos do inferno” (Mt 23). Essa separação

entre amor e verdade, praticada por alguns evangélicos, torna o amor um mero sentimentalismo vazio. Veja o que diz Paulo:


O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 1Coríntios 13.4-7


Percebe-se que o apóstolo não está falando de um sentimento geral de inclusão e tolerância, mas de uma atitude decisiva em favor da verdade, do bem e da retidão. Não é de admirar que o autor desse “hino ao amor” pronunciou um anátema aos que pregam outro evangelho (Gl 1). Do texto paulino anteriormente transcrito, destaco o trecho em que afirma que o amor “regozija-se com a verdade” (1Co 13.6). A ideia de aprovação está presente: o amor aprova alegremente a verdade; ele se regozija quando a verdade de Deus triunfa, quando Cristo é glorificado e a Igreja, edificada.

Portanto, o amor cobrado por aqueles que se ofendem com a defesa da fé, a exposição do erro e o confronto da inverdade não é o amor bíblico. Falta de amor para com as pessoas seria deixar que elas continuassem a ser enganadas sem ao menos tentar lhes mostrar o outro lado da questão. 

Fique por dentro!
O texto que você acaba de ler é um trecho do livro Polêmicas na Igreja – Doutrinas, práticas e movimentos que enfraquecem o cristianismo, escrito por Augustus Nicodemus. Para ler a resenha da obra, clique aqui.

Autor:  Augustus Nicodemus
Fonte: Mundo Cristão

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