Publicada em 22/03/17

O pioneiro das alucinações auditivas

Vi uma homenagem ao Dr. Ralph E. Hoffman, professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Yale e que foi um pioneiro no estudo de alucinações auditivas O Dr. Hoffman morreu em 1º de fevereiro do ano passado aos 66 anos de idade.

 

Hoffman foi um renomado pesquisador pioneiro na área de fisiopatologia das alucinações auditivas, um sintoma frequentemente incapacitante de esquizofrenia e que é resistente ao tratamento. Além disso, desenvolveu um tratamento inovador para alucinações auditivas verbais, utilizando tratamentos de estimulação magnética transcraniana.

 

Quando vi na CNN uma matéria sobre as alucinações auditivas verbais, que também eram conhecidas como esquizofrênicos que ouvem vozes, fiquei fascinado. Principalmente porque as medicações não curavam cerca de um quarto dos doentes mentais desse tipo, ou seja, as vozes continuavam. E a quantidade de pessoas nessa situação é grande, muitos acabando por acreditar ser algum tipo de intermediário entre o mundo terrestre e o espiritual. Nos Estados Unidos da América são cerca de dois milhões de esquizofrênicos, cerca de oitocentos para cada cem mil habitantes. E destes oitocentos, aproximadamente 250 são paranoicos, ou seja, muita gente ouvindo vozes do além.

 

Hoffman também ficou bem conhecido por desenvolver um método de tratamento para essas alucinações auditivas verbais, a técnica da estimulação magnética transcraniana utilizando uma pequena bobina eletromagnética para gerar o campo magnético e que é colocada no couro cabeludo atrás da orelha esquerda onde, segundo a teoria, as alucinações auditivas são geradas. O tratamento foi replicado por grupos em todo o mundo e agora é considerado um tratamento eficaz para esses sintomas. Exceto, parece-me, no Brasil, apesar dos meus esforços em divulgar.

 

Hoffman formou-se em matemática em 1971 e em medicina na Faculdade Albert Einstein de Medicina em 1976. Fez sua residência de psiquiatria no Mount Sinai Medical Center, em Nova York em 1979. Então, foi para Yale para um treinamento e acabou por tornar-se membro da faculdade em psiquiatria durante os últimos 36 anos de sua vida.

 

Em 1987, Hoffman e seu colega, Dr. Tom McGlashan, escreveram um artigo que relacionava a “poda sináptica aberrante” em regiões corticais fundamentais do cérebro adolescente em desenvolvimento para o início da esquizofrenia e os sintomas específicos que acompanham o distúrbio.

 

O Dr. John Krystal, presidente do Departamento de Psiquiatria de Yale, em homenagem ao seu ex-colega, declarou que Ralph e seus colaboradores de Yale e de outros lugares foram fundamentais para a compreensão das alucinações auditivas. E acrescentou que a carreira de Ralph foi distinguida por uma criatividade distinta e sua capacidade de aplicar seus dons matemáticos distintivos com insights que surgiram de sua sensibilidade clínica aberta e intuitiva. Ralph foi mantido em alta estima por sua astúcia clínica e bondade. Sua capacidade de compreender profundamente a experiência de seus pacientes sobre a doença, escutando-os atenciosamente foi o ponto de partida de muitas de suas teorias e experiências.

 

Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.